sexta-feira, janeiro 14, 2005

A Pateira da Tapada

Depois do Luso-Peruano, vou escrever sobre outro excelente restaurante do qual ainda não li nenhuma referência em qualquer “publicação de referência”. E este restaurante abriu em Junho do ano passado, não foi assim há tão pouco tempo (tendo em conta que não estou, de todo, a fazer de propósito, não é minha ideia especializar-me em restaurantes de mérito, mas desconhecidos, pelo contrário – acho que todos os restaurantes bons devem ser divulgados e populares, de modo a manterem-se por muitos anos, para mediocridades já basta –, começo a achar que há muita gente distraída por aí).

Um amigo de longa data levou-me ontem a jantar ao “Pateira da Tapada”. O restaurante serve almoços (menus a 10 euros) e jantares (20 a 25 euros por pessoa compram um excelente jantar, com um bom vinho), excepto Domingo à noite e 2ª feira todo o dia, algures na Tapada da Ajuda. Para lá chegar, é preciso franquear os portões do ISA (avisar o porteiro que se vai ao restaurante) e depois calcorrear ainda uns bons quilómetros (sem qualquer iluminação à noite, mas ao menos o restaurante está bem sinalizado).

O passeio tanto para lá como de regresso oferece algumas das melhores vistas de que de Lisboa se pode ter. O restaurante funciona num edifício térreo e serve essencialmente pratos alentejanos. Avanço em seguida uma amostra do que se pode provar, com notas relativas exclusivamente ao que comemos durante o jantar:

  • Entradas: cogumelos na chapa (óptimos, 4,5), peixinhos da horta (bons, 3,5), puntilhitas (4,5), ovos com espargos verdes (4,5), canja de pombo bravo (excelente, 4,00), creme de coentros (2,00)
  • Pratos: açorda de alho com bacalhau (12,00), migas de tomate com peixe frito (9,50), secreta de ibérica na chapa (13,00), empada de perdiz (de chorar por mais, 14,00)
  • Sobremesas: sopa dourada, encharcada, tarte de requeijão, cheesecake (tudo entre o muito bom e o fora-de-série).
Boa selecção de vinhos, ainda que limitada, a preços que dado o panorama do país se podem considerar pelo menos não escandalosos; serviço simpático e prestável; lareira na sala, com lenha a crepitar; relação qualidade/preço exemplar (nota: a carta tem pratos a 5 euros!).

Eu não possuo os meios de ter como restaurantes de referência sítios como o Bica do Sapato, o Galeria do Gemelli, o Ermitage, o Valle-Flôr, ou o Villa Joya (se me apanho com mais de 100 euros disponíveis para uma refeição a dois, é mais natural ir gastá-los num almoço no Aldebarán...). Feito este reparo, é com muito prazer que junto o Pateira aos meus restaurantes de referência, em Portugal.

Tel. 213 622 001 ou 969 350 948.

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Livros de Viagens (002)

Ébano, Ryszard Kapuscinski (Polónia, 1998)


Ébano - Diversas Edições Posted by Hello

Este é o melhor livro que algum homem branco jamais escreveu sobre África.

Talvez não seja um “livro de viagens” no sentido mais clássico do termo; pelo menos, as viagens aqui contadas nunca poderiam ser feitas por qualquer pessoa (ao contrário dos relatos de, por exemplo, Javier Reverte, Bill Bryson ou Nick Middleton, que podem ser emulados). Mas ao longo de uma carreira de “grande repórter” e/ou correspondente da agência noticiosa oficial polaca, durante toda a época do Pacto de Varsóvia (!), Kapuscinski foi vivendo experiências extraordinárias no continente africano e tomando notas.

Dessas notas resultaram 3 livros: A Guerra do Futebol (não sei se está traduzido em português, o que li ou melhor, ouvi, foi a versão inglesa), que trata de vivências na América Latina e em África; Outro Dia de Vida (idém; sobre os últimos dias da Angola colonial e os primeiros dias da nova realidade do país); e este, que é uma obra-prima.

O relato do abandono de Luanda pelos portugueses em “Outro Dia de Vida” é uma das reportagens mais poderosas que li.

“The building of the wooden city, the city of crates, goes on day after day, from dawn to twilight. Everyone works, soaked with rain, burned by the sun; even the millionaires, if they are physically fit, turn to the task (...) Nowhere else in the world had I seen such a city, and I may never see anything like it again. It existed for months, and then it suddenly began disappearing. Or rather, quarter by quarter, it was taken on trucks to the port. Now it was spread out at the very edge of the sea, illuminated at night by harbour lanterns and the glare of lights on anchored ships. (...) But afterwards (...) the wooden city sailed away on the ocean. It was carried off by a great flotilla with which, after several hours, it disappeared below the horizon. (...) I managed to see how the city sailed away.”

Em Ébano, às experiências extraodinárias vividas num continente que com as independências começava a entrar numa degradação imediata e imparável, o autor alia uma qualidade de escrita encantatória.

“Subimos para o autocarro e ocupamos o nosso lugar. Em momentos como este pode dar-se o confronto entre duas culturas, a colisão, o conflito. Isso acontece quando o passageiro é um recém-chegado que não conhece África. Uma pessoa assim começa a inquetar-se e a olhar à sua volta perguntando: «Quando parte o autocarro»? «O que é que quer dizer com ‘quando’?», responde o motorista surpreendido. «Quando os lugares estiverem todos ocupados.» (...) Daí que um africano, depois de entrar num autocarro, nunca pergunte quando vai partir; entra, senta-se num lugar livre e passa imediatamente a um estado no qual passa uma grande parte da sua vida - à espera. «Estas pessoas possuem uma capacidade fantástica de esperar!» (...)”

Javier Reverte é um dos que considera Kapuscinski uma das suas referências absolutas. Li em tempos uma crítica no Economist, onde o autor, um ex-correspondente que seguramente passou o seu tempo em África em hotéis e bairros de luxo, isolado da realidade o mais possível, reconhecia com evidente dor de cotovelo que “as literature, ‘The Shadow of the Sun’ is in its way magnificent”, mas rematava com uma observação intrigante: “he creates an Africa of his own. It is a fascinating place. Whether it ever existed as he tells it is another matter altogether.”

Existe sim. Como existe...

Microsoft

É triste vivermos num mundo dominado tecnologicamente pela mediocridade que emana da Microsoft. Provavelmente, tem de ser, porque deve haver um aspecto de mínimo denominador comum que talvez seja incontornável à dominação mundial.

Há por aí um filme do BSOD (blue screen of death) que marcou uma apresentação do Windows XP no CES há uns anos (acho que era o XP e que era o CES). Este ano, o keynote speech de Bill Gates no CES correu pior. Uma humilhação inacreditável.

"Still, it's arguable that the technology Gates is evangelizing--the digitally integrated home, with one PC controlling everything from the television to the lights and the heating system--will ultimately be more important than digital music players and photo manipulation software (if you can call superfancy TV important, I suppose). Gates seems to get the big technology picture and seems willing to relegate Windows to an embedded system to achieve that goal. The dirty little secret of consumer electronics is that hardware doesn't run without software and content remains king. (Where's the iPod without iTunes and the iTunes Music Store?) So maybe his little keynote problem didn't bug Bill Gates so much after all. He may be awkward, and he might make Xbox sound about as exciting as Microsoft Access, but where Steve Jobs is talking about a lifestyle and appealing to your gut, Bill's talking about a serious and determined strategy for world domination. It ain't sexy, but then again, war never is." - Molly Wood

Livros de Viagens (001)

Le Camp des Saints, Jean Raspail (França, 1973)

Dizer que "Le Camp des Saints" é um "livro de viagens" é forçar a coisa, mas que é um livro sobre uma viagem do caraças (e as suas terríveis consequências), isso é-o.

A edição original francesa é de 1973, eu li a edição portuguesa da Europa-América creio que poucos anos depois. Há muitos anos, de qualquer modo. Entretanto perdi ou emprestei o livro e acabei por adquirir o ano passado uma edição publicada pelo Grand Livre du Mois, para o reler mais tarde.

Eu que me esqueço de tudo com uma facilidade desgraçada, nunca me esqueci do capítulo XIX desta obra e sobretudo da frase com que encerra: "Ainsi, dans la merde et la luxure, et aussi l'espérance, s'avançait vers l'Occident l'armada de la derniére chance".

O tema é o seguinte: dans la nuit, sur les côtes du midi de la France, cent navires à bout de souffle se sont echoués, chargés d'um million d'immigrants. Ils sont l'avant-garde du tiers-monde qui se réfugie en Occident pour y trouver l'espérance. À tous les niveaux, conscience universelle, gouvernements, équilibre des civilizations, et sourtout chacun en soi-même, on se pose la question, mais trop tard: que faire?

Revistas de Viagens - Top 10

Revistas e Suplementos de Viagens 2004 - Top 10

Melhor revista de viagens: Turismo Rural (Espanha)

Capa da Turismo Rural de Novembro de 2004 Posted by Hello

As outras 9, por ordem de preferência:

02. Getaway (ZA)
03. Condé Nast Traveller (UK)
04. Viajar (Espanha)
05. Travel (suplemento NYT; US)
06. Travel Africa (UK/ZIM)
07. Travel + Leisure (US)
08. Siete Leguas (Espanha)
09. Blue Living (Portugal)
10. El Viajero (Suplemento El País; Espanha)

Consideradas (entre outras, não referidas):
  • Brasil: Próxima Viagem, Viagem, Viaje Mais
  • Espanha: Aire Libre, Altaïr, De Viajes, Geo, ¡Hola! Viajes, Lunas de Miel, Senderos de Extremadura, Rutas del Mundo, Turismo & Aventura, Viajes (suplemento El Mundo), Viajes National Geographic, Vinos y Restaurantes
  • França: Geo, Grandes Reportages
  • Portugal: Atlantis, Blue Travel, Evasões, Fugas (suplemento Público), Rotas&Destinos, Tempo Livre, Volta ao Mundo
  • SA: Divestyle, Escapes (suplemento M&G), South African Country Living, Travel (suplemento Saturday Star)
  • US: Backpacker, Budget Travel, Condé Nast Traveler, Lifestyle (suplemento Forbes), Islands, National Geographic Traveler, Outside, Sophisticated Traveler (suplemento NYT), Travel (suplemento USA Today), Travel (suplemento Washington Post)
  • UK: Travel (suplemento Sunday Times), The Sunday Times Travel, Wanderlust

terça-feira, janeiro 11, 2005

Restaurante Luso-Peruano

Nunca estive no Perú. Do que tenho lido, relevam duas ideias fortes:

1) "There's a lot more to Peru than the Inca Trail. With the Andes, the Amazon and the desert, it has breathtaking scenery, a fascinating history and a huge variety of activities, from trekking to sightseeing to adventure sports. And then there's the food. Roast guinea pig anyone?"

2) "To outsiders, Latin American food may conjure up not much more than the smell of Mexican tacos. But Peru can lay claim to one of the world's dozen or so great cuisines. Beyond its trademark dish of cebiche (raw fish marinaded in lime juice), Peruvian food is little known abroad."

Existe desde o ano passado um restaurante peruano em Portugal. Chama-se Luso-Peruano, é propriedade de um português casado com uma senhora peruana que ele encontrou e por quem se apaixonou no Rio de Janeiro, "há mais de 10 anos e 30 quilos atrás".

O restaurante é em Paiões, uma aldeia saloia da freguesia de Rio de Mouro, entre o Cacém e Sintra, porque o Sr. Gaiolas decidiu ir viver e trabalhar no sítio de onde é.

Algumas especialidades:

  • Entradas: tamales, paté de atum, empanadas, cebiche, yuquitas a la Huancain.
  • Pratos: adobo de chancho, aji de gallina, escabeche de pescado.
  • Sobremesas: doce de fresa, picarones, leche asada.

Restaurante familiar, serviço muito simpático, comida excelente, preço em conta (menos de 15 euros por pessoa, incluindo o vinho da casa, para comer bem).

Lg Arq. Adães Bermudes, 11 . Paiões - Rio de Mouro

Tel. 219 163 359 e 967 769 595


Localização do Luso-Peruano Posted by Hello

Dom Quixote - 400 anos


Capa da EP[S] que aqui refiro
Posted by Hello

Acabei de ler o conjunto excepcional de textos sobre o Quijote que o El País publicou no seu suplemento EP[S] de 19 de Dezembro de 2004 (a propósito: os colunistas do EP[S] são, entre outros, Maruja Torres, Javier Cercas, Rosa Montero e Javier Marías; Rosa Montero é entrevistadora frequente, Juan José Millás serve de jornalista - um luxo), incluindo contribuições de Javier Reverte (que tanto quanto eu saiba, não está traduzido em Portugal) e Arturo Pérez-Reverte.

"Teníamos una empresa grata y ardua: caminar tras la sombra de dos personajes que nunca existieron por sitios que jamás pisaron; para escribirlo luego en un periódico que, como todos, trata de la realidad." Javier Reverte

"Su lanza en ristre contra los molinos, que termina haciéndolo rodar por el suelo, es la misma de esa España ya imposible que va de Lepanto a la Invencible y de ahí a Rocroi, para hundirse, con los viejos tercios destrozados por la artillería francesa, entre las carcajadas de la nueva Europa." Arturo Pérez-Reverte

Número precioso, a guardar e consultar.

domingo, janeiro 09, 2005

The Sanhamanga Canon

3 autores. Por data de nascimento: Fernando Pessoa, José Rodrigues Miguéis, Robert A. Heinlein. E Luís de Camões.

3 livros. Por ordem de publicação:

Heart of Darkness, Joseph Conrad (1902)

I was within a hair’s-breadth of the last opportunity for pronouncement, and I found with humiliation that probably I would have nothing to say. This is the reason why I affirm that Kurtz was a remarkable man. He had something to say. He said it. He had summed up—he had judged. "The horror!" He was a remarkable man.

The Sea Wolf, Jack London (1904)

"Not at all." He was speaking rapidly now, and his eyes were flashing. "It is piggishness, and it is life. Of what use or sense is an immortality of piggishness? What is the end? What is it all about? You have made no food. Yet the food you have eaten or wasted might have saved the lives of a score of wretches who made the food but did not eat it. What immortal end did you serve? or did they? Consider yourself and me. What does your boasted immortality amount to when your life runs foul of mine? You would like to go back to the land, which is a favourable place for your kind of piggishness. It is a whim of mine to keep you aboard this ship, where my piggishness flourishes. And keep you I will. I may make or break you. You may die today, this week, or next month. I could kill you now, with a blow of my fist, for you are a miserable weakling. But if we are immortal, what is the reason for this? To be piggish as you and I have been all our lives does not seem to be just the thing for immortals to be doing. Again, what's it all about? Why have I kept you here?"

1984, George Orwell (1948)

But it was all right, everything was all right, the struggle was finished. He had won the victory over himself. He loved Big Brother.

Falta de Respeito (001)

Évoramonte - o paço, por estas alturas desfigurado com uma antena totalmente despropositada. Enfim, enquanto uma alma iluminada não se lembrar de pintar as paredes... Posted by Hello

Évoramonte

Ontem fomos a Avis comprar azeite para o ano e almoçámos em Évoramonte, cujo centro histórico é um conjunto de casas dentro de muralhas medievais no alto de um monte, como Marvão ou Monsaraz, mas em mais pequeno. O paço-fortaleza é um dos pontos altos (literalmente) da paisagem, em viagens na A6.

Évoramonte, 8 de Janeiro de 2005 Posted by Hello

O almoço foi no "A Convenção" (o nome é referência a um episódio da História de Portugal), um restaurante com uma vista excepcional, uma lista reduzida, boa comida, serviço afável e preços excessivamente caros para a experiência. Entradas: paiola e queijo; grãos cozidos com ovos. Sopas: eu pedi a de tomate com ovos, ela o caldo verde. Prato: uma dose de carne de porco à portuguesa que dava para 3 ou 4 (trouxemos o resto, eles acondicionam a comida para levar). Garrafa pequena de vinho da casa, da Adega Cooperativa de Borba. Garrafa pequena de água. Pão. Uma bica. Penso que foi tudo e estava tudo irrepreensível. Preço: quase 45 euros. O que leva a supor que uma refeição completa para dois com um vinho à altura da refeição se lance aos 35 euros por pessoa. Um manifesto exagero que configura uma relação qualidade/preço muito problemática.


A vista lá de cima, 8 de Janeiro de 2005 Posted by Hello

Quando se trata de restaurantes alentejanos, parece ser incontornável referir o Fialho de Évora. Estive lá uma vez, um almoço de sábado como este, há uns 4 anos e não tenho da experiência uma memória positiva, porque a postura e o serviço me pareceram estupidamente arrogantes e essa é na verdade a única recordação que me resta.

O meu restaurante alentejano de referência em Évora tem sido a Cozinha de Santo Humberto. E o melhor restaurante alentejano que conheço, onde a relação qualidade/preço é, mais do que justa, favorabilíssima, continua a ser o Galito, em Carnide (Lisboa).

  • Convenção (A), tel. 268 959 217 . Rua de Santa Maria, 26, Évoramonte. Encerra às 2ªs feiras.
  • Fialho (O), tel. 266 703 079 . Trav das Mascarenhas 14-16, Évora. Encerra à 2ª feira e 3 primeiras semanas de Setembro.
  • Cozinha de Santo Humberto, tel. 266 704 251. Rua de Santo Humberto, Évora. Encerra à 5ª feira (de longe, a sala mais bonita destes quatro).
  • Galito (O), tel. 217 111 088 ou 217 166 475. Rua da Fonte, 18D, Carnide, Lisboa. Encerra domingos e feriados. O melhor restaurante alentejano que conheço (conheço cerca de 30).

sexta-feira, janeiro 07, 2005

Lugares Sonhados (001)

Galiza - no alto das falésias, no fim do mundo, com o Atlântico a bater a sério lá em baixo e por todos os lados.

Identifiquei dois sítios a ir, quando haja oportunidade.

Semáforo de Bares (eles usam "semáforo" para "farol" em Espanha), hotel de naturaleza, em Mañón na Coruña, perto da capital da província. Very smart. Artigo na Habitania, em Janeiro de 2005. O website deles é pior que mau.

O Semáforo (tel. 981 725 869), hotel de naturaleza, em Fisterra, também na Coruña. Não têm website. Artigo na Turismo Rural de Dezembro de 2003. Este é mais barato, mais simples, não merece artigo em revista de interiores. Caminho de Santiago. Cinco (5) quartos. Abençoados.

São mais de 600 quilómetros até qualquer um deles, mas lá terá de ser, espero eu...

Dormir em Nova Iorque

Algo que me escapa de todo é o critério (?) habitualmente usado pelas revistas de viagens portuguesas na selecção dos hotéis sobre os quais escrevem os artigos de fundo. Especificamente, a escolha sistemática de hotéis com preços estratosféricos.

Por exemplo, a Evasões -- uma revista de que semprei gostei, e que tem contribuído para a minha qualidade de vida quando estou em Portugal, quer quando era dirigida pela Senhora Luísa Jacobetty quer agora, sob a responsabilidade de José Jaime Costa -- publicou recentemente um longo artigo sobre o Mercer.

Vou a Nova Iorque em breve e não vou ficar no "Hotel (The Mercer)", como eles o põem.

Em 2003 fiz 4 viagens aos Estados Unidos, sempre na Continental. O vôo directo diário que a Continental tem entre Newark (EWR) e Lisboa (LIS) usa um avião relativamente pequeno (um 767-200ER) que vai quase sempre nos dois sentidos em overbooking e se enche com meses de antecedência. Com a operação de Lisboa, a Continental não deve perder dinheiro.

Num segmento EWR/LIS que eu era suposto utilizar, o número de passageiros presentes com OK para o vôo excedia largamente a capacidade do avião (o yield management tem deste problemas), pelo que para a respectiva resolução, os funcionários aplicaram o "processo". Ou seja, tratando-se de uma companhia aérea à séria, começaram por perguntar se havia voluntários para apanhar outro vôo, no dia seguinte, em troca de:
  • um voucher de 500 dólares para ser usado numa futura viagem na Continental, válido por um ano;
  • vouchers para ajudar a pagar o jantar nesse dia e pequeno-almoço no dia seguinte, num valor irrisório;
  • estada grátis num hotel barato, mas aceitável, perto do aeroporto.

Ofereci-me como voluntário e passei mais um dia em Nova Iorque. O vôo no dia seguinte foi via Paris e o segmento entre o Charles de Gaulle e Lisboa foi na Air France (e por sorte, em executiva).

Apesar de já ter passado mais de um ano, a viagem que vou fazer agora a Nova Iorque com a minha mulher é graças ao referido voucher e a 40.000 milhas da SkyTeam (vamos partir de Madrid, que a Continental serve com Boeings 777-200ER, aviões modernos e confortáveis equipados nomeadamente com ecrãs de televisão em todos os lugares da económica).

O custo total dos bilhetes foi de uns 180 euros (dos quais uns 20 para as taxas de aeroporto do bilhete-prémio, sendo o resto a diferença entre o preço do bilhete elegível e o valor do voucher; note-se que os bilhetes-prémio da TAP andam pelos 50 euros). Vamos estar em NYC entre dia 20 e dia 23 (3 noites de estada).

De acordo com o TabletHotels.com, nestes dias um quarto standard no The Mercer custa 450 dólares (mais "tax specification: 13.25% + $2.00 per day occupancy tax - not included").

Eu gostava de ter o privilégio de conhecer gente com o perfil de leitor que a Evasões identificou para os seus clientes. E pelos vistos, haverá milhares deles por aí, o suficiente para justificar a tiragem e viabilidade da revista...

Quer dizer, eu compreendo que a componente de sonho é relevante, mas parece-me que umas informações minimamente úteis seriam bem-vindas de vez em quando. Indicar o Mercer como opção de alojamento numa visita a Nova Iorque não é útil; a mim, no quadro dos leitores que imagino para a revista, parece-me um tiro no pé, mais uma questão de self-serving que propriamente um serviço aos leitores.

Mas posso estar enganado. E aliás, como diz o Jerry Pournelle, "never attribute to malice that which is adequately explained by incompetence."

Enfim, com isto tudo, onde é que eu e ela vamos ficar?

Num hotel "produced by Ian Schrager and designed par Philippe Starck", por 143 dólares (mais taxas) por dia num quarto superior (quarto standard: 118 dólares/dia). Sim, três dias no meu Deluxe King Room no Paramount vão-me custar menos do que um dia no Mercer. Talvez os meus 3 dias aqui valham menos do que um dia no "Hotel (The Mercer)", mas: um, tenho as minhas dúvidas; dois, isto consigo pagar realisticamente sem ter de penhorar o futuro das crianças; e três, o meu caso não deve ser único, digo eu...

O Paramount foi o terceiro hotel que Schrager abriu em Manhattan, há já bem mais de 10 anos, pelo que não já não é news. Pertenceu ao seu portfolio (sempre como uma propriedade de referência) até o ano passado, tendo sido reformado pela última vez em 1998.

Reuni alguns comentários sobre o hotel. Por exemplo, uma jornalista inglesa que entrevistou o hoteleiro em 2002: "His bathrooms certainly can provoke, but not necessarily in the exciting way their maker intends. I can still recall my first encounter with the beautiful but baffling taps in the ladies at the Paramount - Schrager’s third hotel to open in Manhattan. By the time I had figured out how to get the water to flow, I had been joined by a posse of women (sharp, savvy New Yorkers) who were equally nonplussed."

Uma crítica ao hotel no Sunday Times (de 2001) : "What’s the story? An art-nouveau hotel just off Times Square, the Paramount is popular with British indie bands such as Manic Street Preachers and Belle & Sebastian. Many like to hang out in the Philippe Starck-designed lobby. Go to the Whiskey Bar, if only to see the amazing waitresses. What’s it like now? Although the action has moved slightly to the Mercer (where Fatboy Slim and Robbie Williams were spotted playing Scrabble in the lobby), the Paramount is still a hive of rock’n’roll activity. The lobby is sumptuous, but some of the rooms are cramped. Do: drink in the Whiskey Bar. Even the stars ogle. Don’t: take a cat. You may not be able to swing it. Excess rating: 7/10."

Andréia Azevedo Soares no Público (Fugas, também em 2001): "Quartos chiquérrimos, decorados pelo famoso designer Philippe Stark. Pena que todo esse conforto venha incluído na conta."

Um aviso en passant numa crítica ao Le Pergolèse: "Though it can't compete for location with its Design Hotels Parisian stablemates, Monna Lisa and Buci Latin, being just off Avenue de la Grand Armée, Pergolese wins our praise for proving that chic isn't inevitably transformed into shabby after a few years of being knocked around by hotel guests (as happened very rapidly to Schrager's all-white Paramount rooms in New York)."

(Espero que de 2001 até agora, os quartos chiquérrimos que a Andréa viu, mais de 10 anos depois do hotel ter sido inaugurado, não tenham ficado tão degradados quanto isso, apesar de nestes tempos o conforto já não vir tão incluído na conta.)

O ano passado, Ian Schrager vendeu o Paramount ao Grupo Rank, que vai usar o edifício para fazer nele o Hard Rock Hotel de Nova Iorque (a gestão dos hotéis Hard Rock é da responsabilidade da Sol Melia, que já se ocupa do Paramount). Como o hoteleiro tem o Hudson mais ou menos nas redondezas, vender o Paramount (por mais de 125 milhões de dólares) foi uma forma de se livrar de um factor de autofagismo, concentrar-se no que está verdadeiramente a dar (ou seja, cobrar no Hudson mais de 40 contos por noite por um quarto em que uma pessoa tem de passar por cima de quem o acompanhe, para chegar à casa de banho), pagar parte das dívidas e arranjar tesouraria para dar uma volta a um dos símbolos mais perenes do panorama hoteleiro da cidade.

Esta situação abriu-me uma janela de oportunidade. Enquanto o Hard Rock não nasce, o Paramount vai existindo e é assim que se pode estar num design hotel no putativo centro de Manhattan, finalmente gerido profissionalmente, por menos de 100 euros por dia (ou pagar um pouco mais como eu, pelo privilégio de mais espaço).

Mas este é precisamente o tipo de conhecimento que não é possível obter através de nenhuma das revistas de viagens que se publicam por aqui...

Paramount Hotel, 235 West 46th Street, New York, NY 10036; 00 1 212 764 5500 . reservar no Quikbook uma estada de pelo menos 3 dias e aproveitar enquanto dura...


"Ground Zero", 9 de Setembro de 2003 Posted by Hello